Musicoterapia para

Pessoas Autistas

Para pessoas no espectro autista, a musicoterapia oferece um espaço planejado onde a comunicação e o relacionamento podem acontecer de forma diferente, sem abrir mão do respeito absoluto à individualidade, ao tempo e ao modo singular de ser de cada pessoa. Pesquisas em neurociência e desenvolvimento mostram que o autismo envolve diferenças em redes de atenção, planejamento motor, integração sensorial e comunicação, desde os primeiros anos de vida. Essas diferenças podem impactar como a pessoa percebe o mundo, organiza o próprio corpo, coordena movimentos e se engaja socialmente.


A musicoterapia se apoia justamente em um ponto forte de muitas pessoas autistas: a sensibilidade à música, ao ritmo e à repetição estruturada. Em vez de tentar “corrigir” quem a pessoa é, o trabalho clínico usa sons e padrões musicais como apoio para desenvolver habilidades que façam sentido para o dia a dia – comunicação, autorregulação, coordenação motora, interação social e participação em diferentes contextos.


Fontes:

Thaut, M. H. & Hoemberg, V. (2025);  Melillo, R. et al. (2022);

Janzen, T. & Thaut, M. (2018); Torres, E. B. & Denisova, K. (2016);

Brincker, M. & Torres, E. (2013); Lai, G. et al. (2012)

Musicoterapia: onde a ciência e a arte se unemovo

Terapia através dos Sons

Diferente do uso recreativo da música ou das aulas de música, a musicoterapia é uma intervenção de saúde conduzida por um profissional com formação específica, baseada em avaliação clínica e em protocolos sustentados por evidências científicas.


Estudos mostram que a música é capaz de engajar redes neurais de linguagem, atenção e planejamento motor de forma particular em pessoas autistas. Por exemplo, em alguns casos o cérebro responde com maior ativação de áreas clássicas de linguagem quando a fala é apresentada em forma de canção, o que sugere uma via alternativa para apoiar comunicação e expressão verbal.


Na musicoterapia , técnicas estruturadas utilizam ritmo, melodia, harmonia e dinâmica de forma planejada para focos específicos – como fala,  linguagem, regulação sensorial, atenção, planejamento motor, controle inibitório e autorregulação emocional – sempre conectando o exercício musical a objetivos funcionais da vida real.

Estímulo à expressão por meio de sons

Desenvolvimento da Comunicação

Muitas pessoas autistas vivenciam desafios para iniciar, manter ou compreender trocas comunicativas, mesmo tendo muito a dizer. Ao mesmo tempo, a resposta a canções, padrões rítmicos e jogos vocais podem ser consistentes, em razão da alta motivação envolvida na atividade musical. Na musicoterapia, a música funciona como uma “´ponte” para a comunicação: canções estruturadas, padrões de pergunta–resposta e diálogos musicais ajudam a organizar turnos, atenção conjunta, imitação e uso funcional da voz ou de comunicação alternativa. São usados recursos como estimulação de fala e linguagem por meio da música, jogos vocais e canções de rotina para apoiar vocabulário, compreensão, uso espontâneo de palavras, frases e recursos de CAA, sempre de forma integrada ao contexto de vida.


A comunicação pode acontecer por meio de maneiras alternativas à fala oralizada, como com escolhas musicais, gestos, movimentos corporais, olhar, turnos rítmicos e uso de instrumentos – formas legítimas de expressão que são reconhecidas e trabalhadas terapeuticamente. O objetivo não é “forçar” a fala, mas ampliar caminhos para que a pessoa autista possa se expressar, ser compreendida e participar das decisões sobre sua própria vida.


Sons que organizam os sentidos

A Previsibilidade Musical

Há evidências de que muitas pessoas autistas têm um padrão diferente de variabilidade motora e de integração sensório-motora – o corpo envia e recebe sinais com menor efeitividade, o que pode dificultar previsibilidade, coordenação e sensação de segurança corporal.


Na musicoterapia, o uso intencional de ritmo, repetição e previsibilidade musical ajuda a:

  • Criar rotinas sonoras seguras, que antecipam o que vai acontecer e diminuem o esforço de adaptação a novas tarefas ou ambientes.
  • Trabalhar regulação do nível de alerta (ficar “ligado demais” ou “desligado demais”) por meio de padrões rítmicos, intensidade e tempo musical planejados para acalmar, organizar ou ativar o sistema nervoso.
  • Apoiar coordenação motora grossa e fina, planejamento de movimentos e noção de sequência, usando instrumentos, canções com gestos e exercícios rítmico-motores conectados a atividades funcionais (auto-cuidado, escrita, brincar, deslocamento).

Essas intervenções não invalidam as particularidades sensoriais, mas oferecem ferramentas concretas para que a pessoa consiga se organizar melhor e participar com mais conforto de suas rotinas.

Construindo vínculos e relações

Ampliação das Habilidades Sociais

Motor, sensorial e social caminham juntos: estudos mostram que habilidades motoras, coordenação e integração visual–motora se relacionam com participação social, comunicação e autonomia em pessoas autistas.


Por isso, a musicoterapia trabalha habilidades sociais a partir da própria experiência musical compartilhada:

  • Tocar juntos, esperar o momento de entrar, dividir instrumentos, fazer música em grupo e criar canções em parceria são situações planejadas para treinar atenção ao outro, flexibilidade, negociação, compartilhamento e resolução conjunta de problemas.
  • A sessão é construída como um ambiente de co-regulação: o terapeuta usa a música para acompanhar, espelhar e, quando adequado, convidar a pequenas mudanças de ritmo, intensidade e forma de interação, sempre respeitando os limites e sinais da pessoa autista.
  • Em muitos casos, familiares são convidados a participar em alguns momentos do processo, para que as experiências musicais possam ser levadas de maneira simples para casa, fortalecendo vínculos e criando rotinas que façam sentido para aquela família.


Assim, a musicoterapia se soma à equipe multidisciplinar como uma intervenção clínica que dialoga com a neurociência atual, com a prática baseada em evidências e, principalmente, com a experiência vivida de cada pessoa autista – sempre com o foco de que o objetivo final é qualidade de vida, autonomia possível e bem-estar.